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  • ondovato9

13 Sonetos de Saudade

Atualizado: 10 de jun. de 2020

Aqui cabe uma explicação. Os 13 sonetos de saudade surgiram quando minha Amada Rainha precisou fazer uma viagem e, logo, nos separamos. Quem é da área sabe que artistas de um modo geral não têm mais do que o próprio ofício para oferecer de presente. Em nossa grande maioria somos duros e pobres, que são coisas diferentes. Escritores e poetas são ainda mais sofridos. No meu caso, a situação é ainda pior: a arte da escrita sempre foi uma atividade paralela, e íntima. Só depois que a vida me jogou ao chão é que decidi dar uma chance àquele velho desejo de sair do armário, como o nome do site bem informa. Assim, me vi escritor e poeta perto dos cinquenta anos. Mas a vida não é de todo peçonhenta, e me deu, junto com a chave do armário, um Amor irrevogável. E foi para esse Amor - a Rainha acima citada - que ofertei um soneto para cada dia de sua viagem.

Ao lê-los, perceberás que não necessariamente têm como tema a saudade, assim como nem todos estarão aqui. Alguns serão encontrados em uma página futura deste site: sonetos eróticos, ou licenciosos, ou libidinosos, enfim, sonetos sacanas. Ou seja, quando eles se misturarem não saberás quais foram dedicados à Musa. Se bem que, uma vez incondicionalmente apaixonado, tudo o que fazemos só tem um destino.



De quando a Atriz encontrou a Palavra


Serena, solenemente se ergue a saudade

Adula a dor que se oferece ao largo peito

Um drama romanesco em derradeiro leito

Duas cenas conduzidas rumo à eternidade

Apresenta aos olhos o mundo imperfeito

Da soma bruta da ferrenha veleidade

Emancipada no jargão da brevidade

Sobre o cadáver decomposto e putrefeito

Altera o texto quando cai a noite e a Lua cheia

Usurpa a ação circunspecta, na surdina

Descendo ao solo com seu manto iluminado

A alma que há pouco se percebia apenas meia

Desvela-se na carne frágil e concubina

E encontra o duplo outro no efêmero tablado


À Rainha – A que encontrou a Palavra



Binários


Nossos olhos, amor, quando se fitam

Reúnem-se na teia plúmbea do tecido virtual

Fazem festa, se brincam, carnaval

Conhecem bem o tempo-espaço onde habitam

Os lábios movem-se em silêncio atemporal

São duas lâminas selvagens quando gritam

Mas nos pixels binários só cogitam

A força vigorosa do encontro visceral

Os algoritmos precisos são traídos

Pela lógica das leis não conhecidas

Pelo escárnio do delito universal

Quando os corpos pelo amor já convertidos

Se tocam pelas vias mais bandidas

E fazem do silêncio um som carnal



A Titereira

Troça o trapo a traquitana

Achincalha a pobre marionete

A cruzeta sobe, desce, se repete

Ao fundo a claque faz bacana

A plateia assiste a cada esquete

E confunde a caixa craniana

Ver a titereira ser, assim, sacana

É dar a própria cara pra bofete

O boneco cai, apanha, se esfacela

Os pedaços espalham-se no palco

A audiência se horroriza perturbada

Nunca vira peça triste como aquela

Em que o títere de inteiro vira talco

Nas mãos da Saudade vil, alucinada



Exposição

Tua nudez, Amor, não me pertence

Sou o dono, sei, mas é do mundo

Como pode este poeta vagabundo

Regular esta beleza ateniense?

De onde é meu corpo oriundo?

A silhueta no filme de suspense,

A bailarina no feliz prazer circense

Meu amor no plano mais fecundo

Cada curva, cada reta, cada linha

Escrita com rigor pelo divino

Não merece a solidão do calabouço

Eu, o vassalo mais amado da Rainha,

Sem incorrer em franco e avaro desatino

Exponho minha luz, meu arcabouço



A morena e a gafe

A moça sinuosa desfila na calçada

A encaro e ela lá de longe vê e acena

Mas de onde conheço esta pequena

Que me sorri tão alegre e excitada?

Imagina, amor, a viva cena

Eu, o bar, e uma cerva bem gelada

Retribuo o cumprimento e olho a fada

Vem se aproximando, que morena!

Minha cara vai se abrindo em simpatia

Eu me ergo para dar-lhe um forte abraço

E me preparo para um fértil folhetim

Mas o enredo se desfaz em ironia

Ela passa me fazendo de palhaço

E se aboleta na mesa atrás de mim



Dói, mas aguento!

Terei ainda alguma bala na agulha

Para sonetos recheados de saudade

Para vencer a besta enfermidade

Que sempre ao vento acende uma fagulha?

Será que cumprirei minha vontade

Enquanto a dor no peito só borbulha

Fervendo a solidão, espúria pulha

Que me faz sofrer em quantidade?

Contra a dor desfiro meu revide

Em versos de amor com traços de comédia

E sem guardar poemas pra depois

É tanto, meu amor, que se divide

Para subir um pouco a minha média

Na falta de um soneto, te fiz dois



A Transgressão


Na ponta de um Marlboro Filter Plus

Queima a saudade, a dor e a distância

Sendo minha única e mortal instância

Louvar Philip Morris, amar a Souza Cruz

Perdoa o albatroz da circunstância

Valha-me Deus! Glória, senhor Jesus!

Mas meu peito ferido por obus

Ainda traz o revés da intolerância

Eu transgrido, meu amor, mas não me puna

Sou apenas uma lástima humana

Encarnada de uma alma bem cretina

Reduzida à importância de uma Tuna

Depois que o seu pedaço, o mais bacana

Foi passar um semestre lá na China




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