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  • ondovato9

Sonetos Esparsos

Atualizado: 27 de set. de 2021

Terra cega

A veracidade em nossa Terra

Triste, que nos separa

É o limite, linha tênue e rara

De um tempo que se encerra

Mais perto, estúpida seara

O destino belo de quem erra

A Paz construída pela guerra

Ferida aberta que não sara

Opiniões contrárias, divergentes

Não são lampejos belicosos

Nem desamor que se irradia

Podem ser precisas, contundentes

Como teus olhos preciosos

Que convivem em lépida harmonia






Separação em três sonetos com incompatibilidade de gênios

I

Já não deito, amor, sobre as migalhas,

Restos, restolhos, que reservas para mim.

Saí vivo/morto da fornalha,

Mas sinto o fogo, sinto o pranto, sinto o fim

Serão nossas carnes a mortalha

De sentimentos exaltados em motim?

Guerreiras prontas pra batalha

Ao toque belicoso do clarim?

Mas antes do teu corte de navalha

Antes de jogar minha toalha

Antes mesmo do butim

Enquanto juntas tua tralha

Não quero ouvir tua alma falha

Perdoa, vou ficar no botequim!

II

Não esquece de levar tua sandália,

Aquela fabricada em Pequim

Leva as fotos da tua parentalha

Teus cds, teus dois livros e teu tim

Não deixa meia, calcinha, uma malha

Nem os teus batons em tom carmim

Cada coisa, tudo isso me assoalha

Me atira ao nível do capim

Mas eu ou forte, sou tenaz, eu sou muralha

O que não sou – e sabes bem – não sou canalha

Sou somente, tão somente um Arlequim

Por isso, vê se você não me atrapalha

Pois é este o ambiente que me calha...

Garçom, garçom!, traz um prato de aipim!?

III

É certa tua ida para a Austrália,

Ou pretendes machucar o meu jardim?

Pode ir, pode ir, não me embaralha

Eu sei sobreviver sem teu latim

Que não seja só fogo de palha

Para eu recuperar meu tamborim

Chamo o Romão, o Pinga e o Medalha

Dedilhando com afago o bandolim

Vamos pra noite fazer farra com a gentalha

Sem hora, sem cobrança ou represália

Nunca mais, nunca mais teu folhetim

Vai, vai, enche logo essa cangalha

Vou torcer por ti, mas não espalha...

Ei!, outra breja e dois dedos de gim!






Mendigo


Estendo a mão quando tu passas

Desfilando nudez em nosso quarto

O desejo irrompe como um parto

Solidão a dois que me devassa


De carícias e carinhos eu te farto

Em atitude recorrente me rechaças

A espada da tristeza me traspassa

E em mil pedaços me reparto


Imploro humilhado teu regaço

Meu amor desfaz-se no cansaço

De um mendigo miserável e maltrapilho


Com a alma esparramada no ladrilho

Recebo a esmola dos teus braços

Fecho os olhos, desisto, enfim, fracasso.






Soneto das Vinte

Quando abres teu sorriso

E teu olhar enviesado me invade

Perco a tez, perco o siso

Já não tenho paz, castidade

É como um sonho impreciso

De amor, dor, liberdade

É um grito, um sinal, um aviso

De correntes, asas e grade

Capitu, Diadorim, Tereza

És predadora e presa

És uma, és duas, és vinte

Livre, marginal e alteza

E quando sobes à mesa

És bela e cruel com requinte






As redes


Vede como é bonito o emaranhado

Na mente dócil da humana criatura

Não percebe a intrincada tessitura

Que mistura o traço reto do riscado


Vai levada engolindo cada agrura

Sem desculpa, por favor ou obrigado

Prosseguindo nesse pasto feito gado

E sustentando a pérfida estrutura


O caminho, acomodado!, é a rede

Não a que dormes nesse barco amontoado

Nem a que tira do rio teu alimento


O caminho, atordoado!, é a sede

Não a que matas com o líquido gelado

Mas a que vive do teu vasto sofrimento






A serpente e o abutre

Não vês a serpente enrodilhada

A subir com tesão por tua perna,

Feito o frio que te abraça na caverna

Que escolhes como cômoda morada

A peçonha que te mata lentamente

É o mesmo alimento que te nutre

Enquanto lá do alto o vil abutre

Namora o teu futuro putrescente

Desperta do teu sono adocicado

É o veneno obsceno que te entranha

E que te faz, assim, domesticável

Na caverna, ambiente controlado,

Livre para expor a sua sanha

A cobra já mostrou-se insaciável





À Escritora

(Para Hozana)


Urde pelo fio da palavra

O tempo a ceifar nossas rimas

Pois que são tão belas, tão primas

Do amor que aqui me lavra


Senhor de hormônios e enzimas

Nos arrima e escalavra

Nos lava, brota e deslavra

Ao sabor de vãs esgrimas


Segue o rumo do universo

Em verso, anverso e prosa

Liberdade sestrosa, divina


No mote da vida imerso

O corpo em contínua glosa

A alma em escrita fina






Soneto para passar o tempo É o tempo, meu amor, que nos maltrata Somos dele, todos meros prisioneiros Nos observa, nos confunde, nos retrata Utilizando-se de artifícios sorrateiros Nos faz crer que somos sempre os primeiros Enquanto mira com prazer da casamata Nos atinge, nos corrompe, nos delata Nos invade, somos todos hospedeiros Parasita discreto, por anos nos afaga Somos belos, somos fortes, somos tudo Nós o vemos como eterno passageiro Nem sentimos o encargo de meeiro Que o Senhor de seu cimo pontiagudo Nos impõe, indelével, como paga



Soneto da morte súbita


Amo com louvor a tua pele

Como a virgem entregue ao devaneio

Exibindo ao intruso o núbil seio

No anseio que o desejo se desvele

Mas a vida como touro de rodeio

Salta, bufa, rodopia e nos repele

Sem dar chance ao amor que se encastele

Foge pelo rumo de onde veio

Se o destino fosse rei inquestionável

Não teria maculado a sua linha

Ao torturar o cupido lentamente

E a mim de maneira deplorável

A crueldade como coisa comezinha

Dilacerando o sentimento pubescente






Soneto para brincar de corda

Era um cepo trigueiro e robusto

Esculpido no talento de artista

Impossível desviar-lhe a vista

Depois de recuperar-me do susto

Avizinhei-me com olhar de turista

E comprovei o quanto era augusto

Por pouco não me perco e desajusto

E vai preso mais um pobre sonetista

Nos momentos em que tudo se define

Falou de Deleuze, Couto e Canclini

De Frida e de Rosa, de batuque e de fado

Abatido pelo meu saber de fanzine

Ergui-me com o tolo olhar de vitrine...

Ai, meu Deus, que pescoço letrado!






Soneto para Carol

Do nada, um sono permanente

Abocanhava tristeza e alegria

Fazia do dínamo, reles apatia

Da natureza, choro inclemente

Era assim, cada noite, cada dia

Fosse fogo ou água, fosse gente

O coração, impávido e dormente,

Despertava leve quando via

Na história, lágrimas de Dante,

Contada por Anjos num graveto

Por um instante, mortal cianureto,

E a dor, eterna e circundante

Fenecia, tropeira e itinerante,

Perante um belo e ávido soneto






Soneto da Foice

A solidão me leva à poesia

Andarilho entregue à própria sorte

Flertando irresponsável com a morte

Em tácita e lenta agonia

Bússola inútil sem um norte

Envolto em obscena nostalgia

A cada noite esperando pelo dia

Da foice aguardando o seco corte

Na esperança de magnânima sentença

Da luz que a poucos alumia

Quando o universo em rara sinergia

Decreta cardíaca licença

Ao amor, pra que entre sem ofensa

Mas que em mim resvala e se desvia






Soneto Improvisado


Dar-te-ei um soneto improvisado

Desses feitos por acaso, no instinto

Meia garrafa de suave vinho tinto

E um coração recém recuperado

Costurado pelo amor que ainda sinto

E a esperança no rolar do raro dado

No arremesso displicente, apaixonado

Do cowboy intruso no recinto

Gira o cubo em cambalhas ordenadas

Como mato no inóspito oeste

Como as marcas de maligna cabala

De um destino sem as linhas já traçadas

A vitória galopando, ou a peste

E no tambor, uma indigna bala






Soneto do frio rarefeito

Como ousas chamar de drama

A dor que habita em meu peito

A lágrima em cristal perfeito

Que por minha face se derrama

Por não encontrar-te em meu leito

Por não arderes em mesma chama

O amor que à alma inflama

Para mim, princípio e preceito

Mas que dorme fatigado

Como sonho enluarado

Em inverno putrefeito

No coração rijo e blindado

Do alto do pico nevado

Envolto em ar rarefeito






A química dos homens

É química a nossa crueldade

No genoma desumano inserida

Caráter que levamos com a vida

Sentimento de suspeita veleidade

Aspergimos a penúria enlanguescida

Nas ruínas do que foi uma cidade

Sem cogitar a mais singela lealdade

À infância ainda há pouco amanhecida

Ela surge pelos ares flutuante

Entidade tantas vezes recorrente

Com a leveza de suave bailarina

A morte e seu rastilho fumegante

Nos corpinhos em monturo eloquente

Alimentos para as aves de rapina






Tu

Havia um beijo em tua boca

E em cada janela d'alma tua

Uma esfera gritante como a lua

A marcar minha trilha mais barroca

Me deixas assim, com a carne oca

Quando desvelas tua carne nua

Sobre a cama, neste céu onde flutua

Minha aura azul de “porra loca”

Esta pele que por fim te exalta

É a ardente chama que me queima

Do amor avesso, relumbrado

Tremente de inútil, fútil teima

Pelos tempos pertinentes devassado

Indócil, puro, feroz, peralta






Os Cândidos

É natural do Cândido a candura

Seja naquele que é nosso

Ou no outro que endosso,

Marcos da melhor Literatura

A voz do Cândido primeiro

No tempo, de cujas dores me aposso

Ecoa ainda, e ainda posso

Ouvi-la na voz do nosso brasileiro

Pois se os séculos as separam

Não separa a História em densidade

E seus fios de fina tessitura

Nos nós firmes que se amparam

No plano fulcral da eternidade

Voltaire e Antônio de rara envergadura






Soneto do Amor perdido em pandemia

Lembro de nós dois numa tarde prazenteira

Era o tempo em que ainda havia vida sobre a terra

Nos perdíamos em lenta e airosa brincadeira

Quando um corpo-alma a outro corpo-alma se descerra

A mente distraída via à frente a estrada inteira

Não previa em seu caminho puro íngreme serra

Ao amor não podia consentir qualquer barreira

Pelo amor iria resoluto para a guerra

Mas, do nada, como um susto, veio a pandemia

Que roubou da Terra insalubre pleno gesto

E do quimérico tempo toda alquimia

Te foste num sopro, sem grito ou manifesto

Levando apensa minha fé, minha utopia,

Deixando-me um peso, um farrapo, um triste resto






Dandara

Tu que és doce, bela Dandara

Trazes da nobreza de Palmares

A fortaleza, o alicerce, os pilares

E o sorriso que enfeitiça e nos odara

Já conheces a vida e seus pesares

Mas o amor, essa joia fina e rara

No coração furtado que sonhara

Habita maternal em mil lugares

No olhar tens a luz que hipnotiza

E no peito o coração em batucada

Na boca, a palavra que inebria

Como o rio em fúria profetiza

A primavera, colorida, enluarada

E o universo em eterna fantasia






Big Bang

Começou com a explosão das estrelas

Aspergindo no vazio infinito

Gametas gasosos de sonho contrito

Esperança fugaz, desejo de revê-las

No largo peito do universo

Berço da impaciência dos cometas

Pulsa a generosidade dos planetas

Fontes da vida e do adverso

Lavoura invadida pela praga

Que transforma em luz a noite vaga

E aspira à conquista inconsequente

De espírito atroz e putrescente

Saca indiferente a insone adaga

E espalha pelos campos sua chaga






Circoração

Meu coração é saltimbanco

Trupe de amor com malabares

Buscando paixões pelos olhares

Palhaço doce, terno e franco

Avança saltitante pelos bares

Atrás da bailarina distraída

Sobre o cavalo jaz adormecida

Esquecida nas lembranças de outros lares

Domador veloz e equilibrista

Leva sobre o ombro a bela artista

Inflamada pelos goles de corcel

Sorrisos num balde de papel

Mas a plateia cega e vigarista

Só aplaude com fervor o trapezista

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