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  • ondovato9

O Inominável

Atualizado: 30 de ago. de 2022

Na virada de 2018 para 2019, cerca de seiscentas ratazanas chegam a nado no mercado do Ver-o-Peso, em Belém. O fato inusitado teve pouca visibilidade, por conta do réveillon e da posse do novo governo. O que ninguém podia imaginar é que se tratava de uma invasão e que os bichos vieram reivindicar seu direito à superfície.

O que acontece com uma nação que se submete aos ratos?

Somos mesmo esse povo cordial?

Até onde é possível resistir?

Essas e outras perguntas estão em “O Inominável”, uma pequena saga por nove cidades brasileiras, protagonizada por um Amor impossível enquanto houver opressão e ratos. Eles vão às últimas consequências para recolocar o país nos eixos e, finalmente, viver. Uma alegoria do Brasil contemporâneo, dominado pelo Mito do retrocesso e da ignorância, aguardando, como um castigo, o seu eterno futuro.



Preâmbulo


Este livro tem como fundação as estranhas ocorrências que macularam o Brasil nos últimos anos. E parte do entendimento de que tais fatos beiram a fantasia, misturando-se, coerentes, à irrealidade, ou à surrealidade, se assim preferires. Essa parca explicação torna-se necessária para que compreendas que este produto é uma incontestável obra de ficção, sem compromisso com a História ou com o Tempo. Tu, privilegiado e-leitor, é que conhecerás o teu lado. Se estás entre os que negam ou se omitem, ou se singrarás pelos mares da Razão e da Verdade. Para mim, como testemunha e vítima, tudo que lerás nestas páginas realmente aconteceu. Quanto a ti, adorável e-leitora, não se sinta preterida, pois o neologismo e-leitor traz muitas camadas de significados, em maior parte, ruins. Se esta foi a primeira – e única – vez que me referi a ti pelo gênero, sinta-se, sim, lisonjeada. Tenho consciência e conhecimento de que aquele que pôs a Peste e sua família nos tronos de Brasília é macho, branco, diplomado, abastado e cristão. Não que muitas de ti não tenham votado na Aberração, contrariando os aguerridos fios da lógica, que dizem, por mero exercício de sobrevivência, que a presa jamais deve seguir seu predador. Sois, portanto, também culpadas, mas não a ponto de vos julgar merecedoras de chalaças públicas. Por isso, vos dispensei do papel de protagonistas, e espero, sinceramente, que a História também o faça. Da mesma forma, desejo que jamais voltes a cometer erro tão grosseiro. Por fim, sinalizo que todos os nomes citados a partir da próxima folha foram substituídos por pseudônimos, para preservar a privacidade e a vida de seus portadores. Poucas personagens são mencionadas nominalmente; a maioria, por admiração e respeito; outras, pela impossibilidade de fugir do contexto factual. Há ainda as identificadas por codinomes, protegidas por todas as páginas deste livro porque sei que ainda estás aí, a espreitar do fundo do armário a Liberdade andando pelo quarto.


Capítulo Zero Zero – Coincidências não existem!


Pode ter sido só coincidência, mas assim que o ano virou, os ratos começaram a aparecer. É verdade que uns meses antes eles já surgiam de vez em quando, discretos, até tímidos. Vinham, colocavam a cara para fora de seus buracos, aprontavam algo e depois voltavam para os subterrâneos, seus submundos.

Agora, pareciam brotar dos esgotos com suas carcaças nauseabundas e personalidades de rapina. Vermes!, nem sequer deveriam ser considerados mamíferos.

Sim, inquisitivo e-leitor, tenho plena capacidade cognitiva para compreender que mamífero é o que mama, e que minha digna ojeriza não justifica a saída da ordem dos roedores das prateleiras de tão vasta classe. O que me incomoda, na verdade, é que não tenhas notado a contradição vigente nas duas primeiras frases deste livro. Afinal, há ou não há coincidência? Se não, seguimos um caminho já traçado por entidades invisíveis e poderosas; se sim, abrimos as portas para o acaso, um caminho sem deuses. E aqui impõe-se um questionamento: se não há ligação preestabelecida, o que explica acontecimentos estranhos e assustadores, inflados pela excepcionalidade, transcorrendo ao mesmo tempo e maltratando uma nação inteira? Foi o que aconteceu no Brasil. E sei que lembras, por mais que negues.

Se antes seus esconderijos eram sua segurança, um refúgio, no ano que se iniciava o comportamento dos ratos demonstrava o contrário. Era como se as galerias por onde escoavam os dejetos das cidades tivessem, de uma hora para outra, tornado-se insalubres. É engraçado, mas, talvez, nosso conceito de insalubridade precise ser revisto. Os ratos simplesmente não podiam mais viver dentro, eles precisavam do fora.

E mais: tidos como animais predominantemente notívagos, encontraram na luz do sol seu mais novo conforto, como se houvessem descoberto num passe de mágica que é possível viver tanto na escuridão protetora da noite como na claridade expositiva do dia.

O começo dessa convivência, claro, foi um pouco tempestuoso. Afinal, humanos e roedores não tinham exatamente uma relação harmoniosa. Desde sempre, os ratos eram sinônimo de achaque, butim e mau agouro, causando asco e pavor. Não à toa, a História é cheia de episódios confrontando as duas espécies. Por exemplo, uma carta recentemente descoberta, atribuída a Pero Vaz de Caminha, conta que um camundongo roeu uma pequena engrenagem do astrolábio do comandante Pedro Álvares Cabral, alterando a percepção da localização dos astros e provocando uma desorientação tremenda. “Apesar dos avisos e apelos dos marujos, o Capitão, parvo como uma porta e teimoso como um gambá, insistiu em sua rota, nos levando a uma terra de devassidão, onde seres com as vergonhas expostas nos esperavam à praia”, disse, supostamente, o missivista. Restou aos invasores agir como ratos.

Isso só para citar um episódio pitoresco que culminou em um dos maiores infortúnios da Humanidade: o trágico encontro dos portugueses com os índios. E nem falo somente pelo genocídio ou pela exploração, mas porque desse relacionamento nasceu o Brasil. Ou seja, nosso país, enquanto instituição burocrática, pode-se dizer, deve sua existência à argúcia imperiosa de um rato. Nada mais justo, talvez, que seus pares venham reivindicar participação no espólio.

E é justamente nesta pátria insólita que o fenômeno mais inusitado do século XXI cravou seus dentes. Como num filme apocalíptico, a catástrofe que vai devorar todas as formas surgiu num sopro do Criador, que decidiu, arbitrário, trazer à tona uma de suas criaturas mais temidas.

O curioso é que a repugnância foi sentimento breve. Durou poucas semanas. Difícil precisar o momento em que o nojo deu lugar à aceitação. Só sei que não pode haver consolo no fato de que nos resignamos cedo demais. E falo como testemunha visual e atuante do que vou narrar.

Nos primeiros dias houve estupefação. A população perplexa não parecia conciliar as ideias. Levou quase um mês para perceber que os artifícios comuns, usados para dar cabo do surgimento de um rato, ou mesmo de uma infestação, não seriam suficientes. Nesse período, o som das ratoeiras partindo a coluna cervical de um roedor tornou-se corriqueiro. Aliás, tudo que prometesse matar um rato esgotou rapidamente no mercado físico e virtual. Em três semanas, o estoque clandestino de “chumbinho” tinha, simplesmente, desaparecido.


...


Capítulo Zero Dois – Todo poder aos ratos


A estática estava terrível sob o sol do meio-dia. Andar também não era aconselhável para conversar pelo radiocomunicador. De qualquer jeito, mesmo em horário de almoço e com todas as interferências, precisava falar com o chefe da equipe no topo da barragem da mina do Córrego do Feijão. O diálogo, entrecortado por chiados e ruídos, ficou armazenado nos arquivos de comunicação da mineradora.

- Tá difícil de escutar aqui embaixo.

- Eu sei, chefe, mas eu tinha que falar com o senhor.

- Fala logo, estou chegando pro almoço, e estou morrendo de fome.

- Tem uma coisa estranha aqui.

- O que é? Algum problema com a barragem?

- Não, chefe. Quer dizer, não sei, espero que não. Tem uma vibração aqui, um zumbido...


Nesse ponto, a estática toma conta da gravação. Quando o áudio volta a ficar nítido, o empregado solta um grito.

- O que foi? O que foi? – Perguntou, alarmado, o engenheiro.

- Ratos, chefe! Um monte de ratos. Milhares deles.

- Aaaah, porra! Os ratos estão em todos os lugares, merda! Que susto!

Mais alguma coisa relevante?

- Não, chefe. Acho que é só. Apesar dos ratos, tudo parece tranquilo. Só aquela água mesmo.

- Tá ok. Confirma logo o relatório e vem almoçar.


No momento em que desligava, ouviu um estalo. Ainda tentou falar com o funcionário, mas foi em vão. O rádio já estava mudo. Ele caminhava apressado. Não fora bom o som que ouvira, mas o relatório que recebera da diretoria não deixava dúvidas: estava tudo na mais perfeita segurança.

Ia pelo corredor externo do refeitório, tendo à direita a exuberância da Mata Atlântica, ainda parcialmente preservada naquela região de Minas. Ao virar a esquina deparou-se com um rato sobre a amurada. As pessoas do interior ainda se espantavam com a aparição dos roedores em lugares e horários incomuns, mas, aos poucos, iam se acostumando. O engenheiro parou apenas por um instante, afinal, seu subordinado já lhe alertara há pouco sobre a massiva presença deles descendo pela barragem. Se estivesse em Belo Horizonte ou Uberlândia é provável que seguisse sem sobressaltos. No entanto, o rato, que segurava, de pé, uma rodela de cenoura, presente de um auxiliar da cozinha, sequer se mexeu, parecia absorto observando o desenho da barragem. Mas, à passagem do humano, calmamente virou a cabeça e olhou-o nos olhos, sem deixar de mordiscar o legume. O homem retribuiu o olhar, intrigado. Abruptamente, o bicho voltou-se para a paisagem. O homem também. Incrédulo, viu primeiro a nuvem alaranjada, depois ouviu o estrondo e, em seguida, as copas das árvores desaparecendo, como se engolidas. Naquele fragmento de segundo, entendeu o que havia acontecido. O rato novamente virou-se, largou a cenoura sobre a mureta e olhou para ele, agora paralisado. O roedor, então, saltou e sumiu, mais ou menos ao mesmo tempo em que dezenas de pessoas surgiram das portas do refeitório em frenética correria. Ao passarem pelo engenheiro, ele só repetia:

- Não vai dar tempo, não vai dar tempo!


Foram oito segundos entre a nuvem de poeira e o mar de lama. No último instante, o engenheiro ainda olhou aterrorizado diretamente para a câmera e balbuciou algumas palavras. Ninguém sobreviveu no refeitório, só o rato. Só ele sabia os caminhos por onde escapar.

O áudio da conversa, gravado pela central de operações da mineradora, e o vídeo, registrado por uma espécie de agência de espionagem interna, vazaram meses depois da tragédia. Vazaram, mas não alcançaram o grande público. A população já tinha consciência de que eram os ratos que mandavam na nação, e uma grande parte parecia gostar disso.

A câmera, do tamanho de uma caixa de fósforos, ficava à sombra, praticamente invisível, em um canto do forro do corredor do refeitório. Cerca de um ano antes, os funcionários, com o apoio do sindicato, conseguiram abolir as câmeras das áreas comuns da empresa. Porém, o tal departamento secreto de vigilância tratou de, aqui e ali, manter uma e outra. Apenas seis empregados sabiam de sua existência, entre eles o engenheiro que deu de cara com o rato comendo a cenoura. Ou seja, como quase tudo na mineradora, o pequeno artefato era irregular. Mas, como todo material relacionado aos ratos, o governo enterrou o conteúdo nos entulhos quase intransponíveis da internet.

A empresa, entre as três maiores do mundo em seu setor, colecionava multas não pagas a todas as esferas do Estado. Tinha também um histórico de desastres. O último havia ocorrido apenas três anos antes, matando – oficialmente – dezenove pessoas e um dos ecossistemas mais ricos do planeta, transformando o rio que lhe batizara em um ribeirão de lama, sem condições de abrigar qualquer forma de vida.


...


Capítulo Zero Nove – O glamour do insondável


Decerto já percebeste que jamais escrevi um livro! Disse isso não faz muito tempo. Dada a inconstância da narrativa, ora intimista, ora verborrágica, ora pendendo para o humor, ora uma reflexão político-filosófica, ora uma conversa contigo, indeciso e-leitor, tens a fiel noção do que é um marinheiro de primeira viagem. E não me escuso, assim o sou, virgem na arte das escrituras; o faço, já sabes, dito e redito por mim, para que te desarrebanhes e assumas tua posição de cúmplice quando chegamos à lama do fundo do poço. Sei que lembras, e torço para que voltes a ter total controle sobre tua consciência.

Vês, com isso, a prova do que digo: falava sobre ser neófito na escrita e já me entrego à cobrança por teu caráter. Tal deslize só se dá em principiantes, como no uso do idioma. Por vezes discorro no texto paulistano, dialeto de minha origem, e logo escorrego para a fala adquirida e incorporada por mim num futuro de algumas páginas para ti, e, hoje, já passado. Acrescento ainda a mistura entre plural e singular, quando tu, que és um só, viras vós, que são muitos, praticamente uma entidade. Segue, por favor, mais um pouco por essas lâminas de papel e encontrarás a língua de que falo, e por que a falo.

Da mesma forma fico migrando pelo espaço cronológico, misturando os tempos verbais. Agora, explano sobre o presente, e imediatamente ao fim deste parágrafo retornarei ao pretérito, que nada mais é do que o futuro a teus olhos de ledor. E ainda há o tempo da história e o tempo da História, nada mais do que a escritura do tempo, se me permites o aforismo.

Percebes a confusão em que me meti só por vaidade? Sim, vaidade! É o que mais move o escritor: o desejo de ser reconhecido e de se tornar imortal. Não é bem o meu caso, mas também o é. A partir do momento em que nos dispomos a movimentar os dedos sobre o teclado, caímos na trama pegajosa da presunção e da vida eterna, sem nos darmos conta de que a eternidade é, mormente, uma falácia. Mas, hás de me perdoar; como já disse: me deves essa!


...


Capítulo Zero Onze – Nós não precisamos de ar

O que se passou nos dias que se seguiram foi muito amor e sexo. É claro que já sabíamos nossos nomes verdadeiros, mas intimamente nos tratávamos como os casais mais adocicados: na intimidade, Amor, Amada/o, ela às vezes me chamava de Lê, numa abreviação de Letrista, eu a nominava também de Rainha e Majestade; na presença de Barista, usávamos os codinomes; para Carvão, éramos Mika e Raíssa. E assim fomos levando os dias, numa festa de identidades.

Nos intervalos, Arquiteta me ensinava truques para driblar a fiscalização virtual. Mostrou como alcançar os confins obscuros da internet e me explicou como fazia para obter CPFs e dinheiro, um estratagema simples que ela chamava de “ajuste fiscal”. Ela encontrava uma pessoa muito rica, com várias contas; dentre elas, escolhia uma com baixa movimentação, de preferência, que só recebesse depósitos, e a paralisava. Sempre que o proprietário a acessasse, veria como estava antes do golpe, apenas acrescentando os valores depositados; qualquer retirada era invisível. Genial! Eu, detentor de um QI mediano, claro, assimilei pouca coisa. Ela era versada nas artes dos algoritmos e pixels, eu malmente sabia editar um vídeo. Por isso ela podia ter um notebook e torná-lo irrastreável. Por isso eu permanecia um pária, sem celular e computador, mesmo tendo aprendido a roubar o sinal de wi-fi mais próximo ou bloquear uma ou várias máquinas conectadas ao mesmo servidor.

Numa dessas tardes, Carvão apareceu e fez umas compras para nós em um sacolão perto dali. Convidamos o garoto para jantar, e ele aceitou de pronto. O que não esperávamos é que Barista aparecesse em um dia de semana para nos fazer companhia. Ele decidira que naquela terça-feira o bar ficaria fechado à noite. Foi o único dia em que nós quatro nos reunimos. Ao fim da refeição, Carvão foi lavar a louça, sob nossos protestos.


- Vocês nunca me deixam lavar a louça. Hoje eu vou lavar e vocês ficam conversando. – A assertividade nos calou.

- Eu vou fazer um café, e aproveito e te faço companhia. – Falei para o carvão.

- Essa hora? – Perguntou o Barista.

- Energia! Deixa a gente aceso por mais tempo. – respondeu a Rainha, não sem insinuar com uma piscadela um ménage ao dono do bar.

- E aí, quem vai querer? – Só Carvão declinou.


Assim, Barista e Arquiteta puderam conversar mais sossegadamente. Por vezes cochichavam, o que despertou uma certa curiosidade no Carvão.


- Você não tem ciúme? – Perguntou, me olhando de rabo de olho.

- Desses dois aí? – Ele anuiu. – Não. Tenho, não. Não sou, e creio que nunca fui ciumento.

- Eu não deixava minha mulher ficar cochichando assim com outro homem.

- Então, é a tua cabeça que tem que mudar. Somos todos livres. As liberdades individuais precisam ser respeitadas.

- Eu ia ficar muito mordido se visse minha mulher cochichando com outro sem saber o assunto.


Havíamos combinado, eu e Arquiteta, que não revelaríamos nossa posição política para ninguém. Permaneceríamos neutros, mesmo para o Carvão. De modo que não pude falar um pouco mais sobre liberdade sem correr o risco de sinalizar de que lado estávamos. Preferi sair pela tangente.


- Ei, rapaz, mas tu já tá na idade de ficar pensando nisso?

- Ei, seu Mika, eu até já beijei. E teve uma garota que deixou eu ver o peitinho dela bem de pertinho. Deixou até eu pegar. Mas não conta pra dona Raíssa. Ela não ia gostar. – Rindo, passei a mão na cabeça do menino e me concentrei na produção do café.


Tempos depois, Arquiteta me contou sobre os cochichos daquela noite. Era o Barista querendo entender o que estava acontecendo conosco.


- “Vocês estão insuportáveis!”, ele disse. E eu só conseguia repetir que nunca vivera nada parecido, que nós nos apaixonamos, que nós nos amamos, e que tínhamos certeza de que aquilo era pra sempre.

E eu tentava explicar que não era como essa certeza cotidiana, que era diferente de outras certezas sentimentais que eu já tivera. Era algo que brotava da proximidade e do afeto, e da incrível conexão de nossas almas. E que era muito evidente pra mim que se tratava de um acontecimento raro. E eu olhava pra ti e pro Carvão conversando na cozinha e eu já não tinha mais certeza de nada, apenas sabia que ali estava o meu companheiro pro resto da vida.


Ela me falou isso numa noite estrelada, deitada no chão da área de serviço, com a cabeça sobre minha coxa, olhando o céu, depois de uns Mallarmés, entre um baseado e umas taças de vinho.


- Ele ficou pasmo. Começou a fazer um monte de perguntas. Por fim, queria saber se, agora que nos amávamos eternamente, não ia rolar um ciúme. E eu disse pra ele deixar de ser besta, e que nós também o amávamos.


Ela fez uma pausa e logo prosseguiu, lânguida.


- E se a gente parasse de fugir? - A pergunta me pegou desprevenido. – É!, a gente ganha novos nomes, novos documentos, um pouco de dinheiro, compra uma casinha numa praia, planta uma tangerineira e vive do mar. Da vida, pro resto da vida.

É sério!, pensa nisso. – E dormiu.


E eu, que já conhecia aquele apagamento abrupto, a deixei descansar mais um pouco ali mesmo e voltei na memória àquela noite.

Assim que o Carvão saiu, Arquiteta tirou a roupa e ficou só de calcinha. E isso não significava devassidão, mas liberdade, despojamento e confiança; e se fosse devassidão, seria muito bem-vinda. Preparei uma caipirinha e o Barista puxou um beck do bolso. Conversamos muito sobre a situação do país, sobre os ratos e sobre nós e nossas experiências com a invasão. Antes do sexo propriamente dito, ainda falamos sobre o proprietário do prédio e a extorsão progressiva que ele vinha praticando. Barista foi direto.


- Precisamos eliminá-lo. Cortar o mal pela raiz.

Você quer participar? – Disse, virando para mim. Eu, já meio aéreo, não entendi do que se tratava.

- De quê?

- Da execução, uai!

- Mesmo? – Perguntei assustado.

- Claro! Você é o ameaçado, o extorquido, nada mais justo que, pelo menos, assista, veja o seu desafeto sucumbir.

- Não foi isso que eu quis dizer. Não se eu vou participar, mas, se você tá falando mesmo em matar uma pessoa?

- Claro que sim! Olha o risco que estamos correndo. E eu considero muito importante que você diga aquilo que ele precisa ouvir.

- De que adianta falar, se o cara vai morrer? Não vai poder refletir sobre os próprios erros e mudar de atitude. Não é? – Eu estava ficando transtornado.

- Não é disso que se trata. É para ele saber por que está morrendo. Qual foi o trem errado que ele pegou.

- Você tem certeza disso? É preciso? Matar uma pessoa? Sei não. Não! – Falei, já misturando os dialetos da minha cabeça e andando de um lado para o outro, nervoso.

- É lógico! Se o velho delata vocês, tudo cai por terra. Não podemos correr esse risco. E só retaliação não vai funcionar. Se ele corre pra polícia, nós tamos fodidos. Além do mais, ele já viveu muito; já tá na prorrogação.

- Não sei se eu quero isso, não sei se aguento. Não tenho a mínima intenção de fazer parte de um assassinato.

- Não é assassinato!, chama-se execução. E tanto é assim que a nossa organização tem um método próprio, carregado de simbolismo.

Nós usamos um rato vivo para sufocar o condenado, devidamente amarrado, em decúbito ventral, de bruços. Enfiamos a cabeça do rato na boca do cara. A reação é imediata. Ele evita de toda maneira encostar a cara no chão, pois isso empurraria o rato ainda mais pra dentro. O bicho também precisa de ar e só tem uma alternativa: cavar com os dentes em busca de uma saída, destruindo a cavidade bucal do sujeito, que se afoga no próprio sangue. É nessa hora que você fala tudo, enquanto ele tá morrendo. É rápido, cinco minutos, seis, não mais que isso, mas de extremo sofrimento. E, no fim, morrem os dois: o homem e o rato.


Minhas feições cheias de horror e asco eram muito evidentes. Eu não tinha palavras, estava asfixiado pelo terror. Uns bons segundos depois, consegui gritar:


- Meu Deus! Que porra é essa?


Foi o suficiente para ele cair na gargalhada. Não só ele, Arquiteta rolava na cama de calcinha colorida, rindo deliciosamente, com seus lindos seios se revezando nos raios luminosos do abajur. Depois que ambos se cansaram de tanto rir, com Arquiteta correndo para o banheiro para não se urinar toda, o Barista conseguiu falar.

- Precisavas ver a tua cara. – E continuava rindo.

- Tá certo! Eu faço o jantar, o café, a caipirinha, e vocês ficam tirando uma com a minha cara.

- Ele também fez isso comigo. E eu também caí. Ele é ótimo. A cara nem treme.

Mas não fica chateado, não; eu tô pronta pra te pedir desculpas.


Era a Arquiteta, completamente nua, nos convidando com os olhos a testar o sofá, a três. Eu e Barista, sem pestanejar, fomos atrás da Musa colocá-lo à prova. E ele aguentou bem.

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