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  • ondovato9

O Caos é dentro da gente

Atualizado: 23 de set. de 2021

Cena 1


No princípio era a escuridão. No princípio era o silêncio. A calma acoplada à ordem. O silêncio e a escuridão em completude, evocando, talvez, justamente, o princípio. O Princípio de tudo.


Aos poucos os ouvidos vão se acostumando. Há um barulho débil de cidade. Ou uma cidade tranquila, ou um horário tranquilo, ou uma cidade com medo, independente da hora. Poderia ser uma cidade devastada, em zona de guerra, sitiada, ocupada, destruída por uma invasão extraterrestre ou dominada por zumbis.

Passa um ônibus ou um caminhão, rompendo a calmaria, como se a circulação de um automóvel fosse algo raro por aquelas bandas. Ouve-se. Passos vêm se juntar ao frágil silêncio. Duas ou três chaves tilintam no breu. Uma delas encontra o metal da fechadura, entra e gira, duas vezes, até o golpe seco da maçaneta. Uma porta abre, alguém entra apressadamente, trazendo junto a névoa espessa da rua. A porta fecha, a chave entra e gira, duas vezes. Após alguns instantes e incertos movimentos, uma luz acende.

É uma casa, ou algo parecido. O ambiente é claustrofóbico. Sala, cozinha, quarto, banheiro, tudo no mesmo espaço, misturado. Simples, pobre, apertada. Circulando pelos escassos espaços, uma mulher trans.

Alguém parece estar deitado na cama. Aliás: uma cama, uma poltrona, uma geladeira pequena, um fogãozinho, uma tevê de tubo, um videocassete, um aparelho de som portátil, uma mesa e duas cadeiras, alguns livros, alguns VHS, tudo ultrapassado, velho, vindos de um passado cada vez mais distante.

A única passagem para o mundo exterior é a porta. Ela tem uma abertura no centro da folha, de 40 x 30 cm, coberta por um vidro ou plástico fosco e amarelado. Por ali, algumas vezes, as sombras entram em contato. Um carro a distância projeta uma árvore, pessoas andando, correndo, uma onça ou um gato. Um rosto.

A mulher está na pequena pia, preparando algo, lavando algo. Até que, no ir e vir da intimidade, ela monta uma refeição para duas pessoas. Vê-se que é o café da manhã, mesmo lá fora ainda escuro. Pelo menos é o que parece. Ela tira o resto de roupa que ainda lhe cobre. Não está nua, mas está visivelmente desvestida. Vai até a cama encolhida, escondida num canto. E docemente chama por sua mãe.


LETÍCIA, sorrindo.

Mãe. Mãe! É hora de acordar.

Já, já o sol vai aparecer e a senhora precisa assumir seu turno.

Não podemos fraquejar. Somos todas mulheres.


Ela, então, pega sua mãe nos braços. É um manequim ou um boneco, devidamente vestido com roupas de mãe. A mulher a coloca na cadeira. Será sua companhia para o café da manhã.

Arruma a cama antes de servir a refeição. O cardápio é muito simples: café, meio pão e qualquer coisa, ou uma variável disso. É sempre assim, todos os dias. Tudo parece sincronizado, como numa rotina há muito não interrompida ou quebrada. Na parede, sobre a pia, um obsoleto relógio de ponteiros faz as vezes de mestre do tempo. Neste momento, marca 5:50.

A mulher observa a mãe.


LETÍCIA

Todos os dias, não é, mãe?

Todos os dias você me faz preparar seu café, e não come.

Nada! Não toca em nada.

E eu sou obrigada a comer a sua parte, apenas para não desperdiçar.

A senhora sabe o sacrifício que é conseguir um pão?

Devia ser mais delicada e agradecida com sua filhinha.

Afinal, se não fosse por mim, a senhora não estaria aqui.


Na cabeça da jovem mulher sua mãe fala, argumenta, pragueja, acusa, afaga. Por vezes, ela está realmente ali.


MÃE

...


LETÍCIA

Todos os dias, todos os dias, todos os dias!

Em vez de agradecer, a senhora vem com a mesma conversa.

Eu já lhe disse!

Mesmo nesse mundo desumano, acabado, em ruínas, eu consegui um trabalho.

Claro, clandestino.

Tão clandestino quanto o pão que a senhora não quer comer.

É um pão não regulamentado porque eu não posso ir numa padaria de verdade.


Ela troca os “cafés”. Agora come o pão que pertencia à mãe. Seu olhar é vazio. Mira o nada. Arranca pequenos pedaços do pão e põe na boca. Mastiga lentamente.


LETÍCIA

Sabe, mãe, eu lembro daquele mundo.

Cheio de gente, amigos pra caralho, pra todas as ocasiões.

Shopping, balada, trabalho.

Eu até estudava, lembra?

Ciências Políticas.

Políticas Públicas. Pena que fiz menos de dois semestres.

Mal conheci Maquiavel.

Tudo virou de cabeça para baixo.

O mundo que a gente conhecia, simplesmente, morreu.

Agora... só nos resta sobreviver.


Ela continua sentada. Espalha migalhas e farelos de pão sobre a mesa. Mexe de um lado para o outro. Mistura, como se tentasse vislumbrar o futuro nos restos de pão.


LETÍCIA

O triste de tudo, mãe, é querer domar o caos.

O caos não dá nem para entender.


A moça se levanta e tenta caminhar no espaço exíguo; parece procurar algo na memória.


...

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