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  • ondovato9

Freedom - uma fábula noir

Atualizado: 23 de set. de 2021

Cena 1 - O Noctívago.


Aos atentos olhos de um falcão, a cidade era líquida. Do alto, a garoa que desferia seus dardos fluidos nos corpos cansados do tardio retorno ao lar, formava uma espécie de tablado liquefeito, como liquefeita era a moral àquela hora, naquele bairro, especialmente em certas vias, precisamente para certas pessoas.

Um homem desce a rua em busca de um lugar qualquer para um trago, o último do dia. Tenta ao máximo proteger-se da chuva fina, mas incômoda. Com uma mão fecha o sobretudo, com a outra segura o chapéu para não perdê-lo ao sobrevento.


O Noctívago parece oferecer abrigo. Lembra-se muito bem. Já fora freguês, em outros anos, outros tempos. Costumava passar longas horas do dia e da noite por ali. Tomava seus conhaques e fumava seus cigarros, ou charutos, quando o dinheiro permitia.

Tirou o sobretudo, sacudiu-o e pendurou-o ao mancebo. Sentou-se, bateu levemente seu chapéu na cadeira e deixou-o sobre a mesa. Imediatamente acendeu um cigarro. Olhou para a pequena torre onde anos atrás ficava seu escritório. Soltou uma baforada na cara do garçom, que se preparava para cumprimentá-lo.


LOUIS

Perdão, Person. Não tinha visto você.


PERSON

Eu percebi, sr. Brown, já...


O cliente atrapalhado logo percebeu que a distância e o tempo podem destruir uma relação de amizade.


LOUIS, erguendo-se e pondo as mãos nos ombros do garçom.

Person, por favor, passamos anos conversando sobre os mais variados assuntos, alguns até bem íntimos.

Me chame de Louis.


PERSON

Tudo bem, sr. Louis...


LOUIS

Só Louis, sem o senhor.


PERSON

Só se você continuar me chamando de Person. Há muito tempo ninguém me chama assim.

Louis!, vai me deixar no vácuo mesmo?


Só naquele instante, Louis notou a mão estendida do garçom, fez a velha cara de idiota e o cumprimentou efusivamente. Riram como amigos.


PERSON

Havia muito tempo que você não aparecia por aqui.


LOUIS

Sim, Person, muito, muito tempo. O suficiente para sentir saudade desta terra.


O homem para por um momento e captura o silêncio da chuva fina, como se lembrasse de algo que hoje lhe causava remorso.


LOUIS, sentando-se novamente.

Desde aquela bobagem que eu fiz, precisei desaparecer por um tempo.


PERSON

Todos cometemos erros.

O se... você é um ser humano.

Tem o direito de errar.


LOUIS

Na minha posição à época, na minha profissão, não poderia ter escorregado daquele jeito.

Minha reputação ficou para sempre maculada.

Você sabe, todos sabem.

Não é fácil reconstruir o arcabouço de um caráter.

E por quê?

Por dinheiro.

Bem, é certo que, se eu não aceitasse, minha vida correria um sério risco.

Gosto de pensar assim.

Preservo um pouco de dignidade.

No mais, tudo o que consegui foi perder.

Perdi amigos, respeito, clientes, status.

Hoje eu olho para essa torre e tudo o que vejo é passado.


PERSON, um tanto desanimado, exibindo a decadência ao seu redor.

E um passado morto. Foi como uma maldição.

Nesses últimos anos, tudo decaiu por aqui.

A marginalidade tomou conta das ruas, casas e prédios desvalorizaram, moradores se mudaram. Famílias que viviam aqui há três, quatro gerações, foram embora.

O comércio faliu.

Veja aqui, vivemos às moscas, e hoje é sexta-feira!

Por isso ninguém me conhece mais como Person, porque as pessoas não frequentam mais esse lugar.

Não creio que vamos sobreviver mais uma temporada.


LOUIS

É, o centro nervoso mudou, os espertos foram junto.


Louis logo percebeu a dubiedade de sua fala.


LOUIS

Desculpa, Michael, eu quis dizer esperto, mas de uma forma depreciativa.


PERSON, rindo.

Deixe disso, velho amigo. Ao longo da vida, vivemos e revivemos tantas situações. Ora, somos perspicazes; outras, cegos. É da dinâmica da natureza essa alternância de estados. Basta olhar ao redor. Lembra como isso aqui fervia?


LOUIS

Claro que sim!


PERSON

E isso aqui, hoje, é o Velho Centro.


LOUIS

E eu não posso deixar de pensar que minha escolha tem, pelo menos, um pouco a ver com isso.


PERSON

Não sei, Louis. O que eu sei é que é o caminho natural das coisas, especialmente as feitas pelo homem. Tudo tem um tempo, tudo é finito.

Isso iria acontecer de qualquer jeito.

Mas, diga: o de sempre?


LOUIS, admirado.

Sim, ainda lembra.

Pegue um para você, vamos brindar ao nosso reencontro.


PERSON

Não, Louis, eu não bebo em serviço, você sabe.


LOUIS

Que é isso.

Eu estou vendo, você está sozinho.

Praticamente fechando.

Vamos!, pelos velhos tempos.


PERSON, convencendo-se.

Assim, eu sou obrigado.

Eu vou pegar.


Louis assentiu com um sorriso e, assim que Michael entra no bar, levanta-se e vai à beira da calçada. Olha para um lado e para o outro. A brasa do cigarro era a luz marcando o centro da decadência. Assim como O Noctívago, que resistia bravamente.

Ele apaga o cigarro no chão e respira profundamente o ar gelado. Olha para cima, só há nuvens pesadas e tenebrosas. Relâmpagos pipocam, trovões ressoam. Mira pensativo a pequena torre abandonada. Seus olhos se perdem. Não há nada promissor, no chão ou no céu.

Os passos claudicantes do garçom, trazendo uma garrafa e dois cálices, o tiram do transe momentâneo e ele caminha para a mesa.


PERSON

Aqui está: o melhor brandy da região.


Eles se olham e percebem a piada involuntária. Não há mais nada na região. Aquele só pode ser o melhor brandy. Gargalham e brindam, como se estivessem felizes.


LOUIS

E a perna?


PERSON

Como sempre. Em dias como hoje dói mais, em outros dói menos.

A guerra deixa sempre o seu legado, social, moral, psicológico ou físico.

Ou tudo junto.

Eu ganhei dois ou três.

Um deles vai me acompanhar para o resto da vida.

Os outros a gente procura disfarçar, não é mesmo?


LOUIS

Você parece bem.


PERSON

Sim, mas, na guerra, sempre fazemos coisas questionáveis.

Por vezes abdicamos de nossas convicções morais em nome da sobrevivência ou da sanidade.


LOUIS

Como bem já dissemos, nem é preciso a guerra para tomar decisões controversas, ou amorais.

Às vezes, simplesmente, fraquejamos.


PERSON

É isso, amigo!


Um breve silêncio impôs-se entre os dois. Ambos em suas lembranças mais danosas, caíam sempre na busca de justificativas para suas atitudes. Eram momentos opressores e que calcinavam o resto de humanidade que ainda julgavam ter. Tais reflexões eram comuns na intimidade e na solidão. Raramente se deixavam abater em público ou diante de alguém. A situação só não era mais constrangedora graças à velha amizade e ao fato de que um e outro tinham motivos para se arrepender. Coube ao garçom a quebra daquele clima desanimador.


PERSON

Uma das coisas que aprendi em nossas inúmeras conversas é que coincidências não existem.

Logo, esse encontro não tem nada de casual. Estou certo?


LOUIS

Muito bem, Person, já está pronto para uma nova carreira quando isso tudo acabar.

É isso mesmo, eu não vim aqui só para te ver.

Peguei um caso que tem uma intensa ligação com a Torre.

Também achei que não era coincidência.

Uma mulher me procurou.


Ele tira uma foto do bolso e mostra ao garçom.


LOUIS

Conhece?


PERSON

Claro que sim!, quem não a conhece?

É Freedom, a cantora.

Ela começou a cantar por aqui antes do colapso, mas não é do seu tempo.

Ela é das que migraram junto com a boemia.

O que ela tem a ver com a Torre?


LOUIS

Por enquanto, Person, eu não posso dizer.


O garçom parece se empolgar com o rumo da conversa. Serve mais duas doses.


PERSON

Vamos ver como andam meus dotes dedutivos: Nicholas Right, o Mr. Goodman, comprou a Torre há algumas semanas, disse que tem a intenção de transferir seus negócios para cá, promovendo e prometendo a revitalização do bairro.

E todos sabemos que ele quer alçar voos mais altos, deixar de ser apenas uma celebridade histriônica e folclórica, rica e crente.

Ele quer deixar para trás a figura caricata dos comerciais.

Ele e Freedom, amantes?


Diante do silêncio do detetive, Person continua sua prática.


PERSON

Sendo Mr. Goodman casado e uma espécie de paladino da moral e dos bons costumes, um caso com uma das cantoras mais conhecidas do submundo boêmio não seria nada edificante.

Ela é que foi ao seu escritório?


Louis estava deveras impressionado com a verve detetivesca do garçom, a não ser que ele soubesse de algo mais, o que deslegitimaria todo aquele exercício silogista.


LOUIS

É claro que você sabe de algo que eu não sei, ou não teria chegado a tais conclusões, assim, tão rápido.

E, nesse caso, eu estaria servindo mesas.


O garçom soltou uma sonora gargalhada.



PERSON

Agora deu para humilhar antigos companheiros?

Será que um pobre garçom não pode ter um rasgo de inteligência, um rompante de lógica?


O detetive mais uma vez percebeu a ambiguidade e a indelicadeza de suas palavras, e ergueu a dose de brandy.

LOUIS

Meu amigo, me perdoe novamente. Hoje eu estou demais! Foi outra colocação infeliz, não foi minha intenção ofendê-lo.


Person anuiu, ergueu sua dose e brindaram. E beberam.


PERSON

Isso só me faz acreditar ainda mais firmemente no seu talento.

Sim!, eu sei de algo que você não sabe.


Mais uma vez se olham e se veem. Gargalham. Louis serve mais duas doses. Entrega a de Person, pega a sua e oferece outro brinde.




LOUIS

A tudo que você vai me contar e ninguém vai ficar sabendo.


O garçom quase derruba sua dose ao rir da brincadeira. Bebem.


PERSON

A primeira função do novo prédio foi a de ninho de amor.

Alguns operários, poucos dias, primeiro andar.

Nas três últimas semanas, Goodman e Freedom têm se encontrado regularmente aqui.


LOUIS

Aqui, no bar?


PERSON

Não.

Quer dizer, ela o espera aqui, toma um café ou um whisky até o telefone tocar na cabine.

Ela nem atende, simplesmente, paga a conta e sai.

Praticamente todos os dias.

Vai para a Torre, fica uma, duas horas por lá, sai, passa aqui novamente, um whisky, e vai embora.


LOUIS

O calhorda sequer a leva embora.


O garçom ri novamente.


PERSON

O mesmo eterno cavalheiro sedutor, pensando no bem-estar da moça.

É inspirador.


Serve outras duas doses.


LOUIS

A que horas eles costumam se encontrar?


PERSON

Ela chega por volta das vinte e uma, e canta à meia-noite no Red Star.

Ou seja, até meia hora antes é possível encontrá-la por aqui.

Hoje ela não veio.


LOUIS

Parece que eu vou voltar amanhã.


Outro brinde. Viraram.


Louis se levantou para partir. Michael o segurou pelo braço.


PERSON

Espere um pouco.

Eu não falei tudo.


O detetive prontamente se interessou e sentou-se.


PERSON

Goodman a machuca, a maltrata.

O homem de bem é só fachada.


LOUIS

Como sabe disso?


PERSON

Esqueceu-se de que garçons são fiéis e dóceis confidentes?

No sábado passado, ela chegou aqui com o olho roxo, e eu perguntei: noite ruim?

Ela chorou copiosamente e não parou de falar por meia hora.

Como você vê, não há muito o que fazer por aqui depois das dez.

Dei-lhe total atenção.

E ela desembestou a falar.

Disse que Goodman a procurou uma noite, depois de um show.

Parecia apenas querer flertar, conhecer, enfim, nada com que ela não estivesse acostumada.

Famoso, endinheirado, um gentleman na primeira hora.

Ela foi fisgada.

Caiu.

Estão juntos há quase um ano.

Já no segundo mês ele bateu nela pela primeira vez.

Um tapa.

Disse que a viu olhando para outro homem enquanto cantava.

Depois disso, segundo ela, as brigas e agressões tornaram-se frequentes.


LOUIS

E por que simplesmente ela não dá o fora?


PERSON

Ela tenta, mas não consegue.

Ele sempre pede desculpas, implora perdão, diz que vai mudar.

E quando isso não basta, ele a ofende ainda mais, humilha, menospreza.

Ela tem uma filha, de sete anos.

Vive com a avó, na periferia da cidade.

Para quem trabalha na noite é conveniente não ter filhos.

Mães tendem a ter menos oportunidades.

E não é só.

Ele descobriu uma parte do passado de Freedom que ela queria esquecer.

Parece que mandou alguém segui-la.

Investigou-a.

Não precisa ser muito esperto para imaginar o nível das ameaças.

Só o que senti é que ele é capaz de tudo para conseguir seus objetivos.

Ela se sente só e acorrentada.


Louis serve mais duas doses. O silêncio. O som.


LOUIS

Por que ela?


PERSON

Freedom é um xodó da noite.

Todos a amam.

Mr. Goodman acha que tê-la por perto pode facilitar seus planos imobiliários e políticos.


O som. O silêncio.


LOUIS

Não foi ela que me procurou.

Foi a esposa de Goodman.

E o mais estranho é que ela queria justamente que eu protegesse Freedom.


PERSON

Como assim?


LOUIS

Eles têm um casamento de conveniência.

Praticamente não vivem juntos, cumprem necessidades legais.

Por mera casualidade, ela soube do envolvimento dos dois, ouviu uma conversa ao telefone.

Ouvia apenas o que o marido dizia, de Freedom só ouvia o choro.

Então...


O detetive hesitou, olhou para o garçom e fez gestos não muito nítidos. Para disfarçar, resolveu pegar a dose de brandy.


PERSON

Então o quê, Louis?


LOUIS

Essa é a parte que eu não posso falar.


Tomou sua dose, deixou uns dólares sobre a mesa, pegou chapéu e sobretudo e saiu. Alguns passos depois acenou para o amigo, que permanecia imóvel.


LOUIS

Até amanhã!


O detetive some na escuridão. Person se levanta e começa a recolher as cadeiras. De dentro do bar surge uma mulher, em seu glamour e em seu vestido de noite. É Freedom. Ela vai até a mesa e se serve. Vira uma dose.


FREEDOM

Como você fala, Michael!

Aliás, não sei se te chamo de Michael ou de Person.


PERSON

Person é meu sobrenome, Freedom. Pode me chamar do jeito que preferir.

Quanto à minha boca grande, apenas acho que Louis pode te ajudar.


FREEDOM

Não sei se você tinha o direito de decidir isso.


PERSON

Você sabe.


FREEDOM

O quê?


PERSON

Ora, Freedom, somos amigos.

Eu gosto de você.


Freedom apenas assente, serve duas doses e entrega um cálice a Michael.


PERSON

Assim eu vou ficar bêbado.


FREEDOM

O pior de tudo era ver vocês tomando o meu brandy!


Sobe a música, apagam-se as luzes.














Cena 2 - Interlúdio 1.


Freedom surge cantando “Blue Moon”, sensual e lastimosa, passeando pelo cenário, brincando com os postes, até chegar à mesa, enquanto ao longe soam os barulhos da cidade. É noite de sábado, agitada, fervente. O clima permanece o mesmo, turvo. Às vezes, gotículas de água flutuam ao sabor do vento, mas a névoa, aqui, na parte alta da urbe, é que não se desprende. Parece ligada ao solo, como uma mortalha.


No meio daquele deserto decadente, só “O Noctívago” permanecia vivo. Freedom senta-se em uma de suas mesas. Person, prontamente, a serve.

A cantora, melancólica, toma uma dose de brandy e fuma, elegante, um cigarro. Ela espera.

Person enxuga copos no balcão, sonhando com uma freguesia que não chega.

Permanecem, assim, em seus silêncios e aguardos.

Até que a luz do primeiro andar da Torre se acende.

Logo depois, o telefone toca. Uma, duas, três vezes.

Freedom se levanta, enfadonha, calma e fria. A tristeza veste-lhe o corpo. Person, do balcão, a observa. Ela caminha em direção ao prédio. Assim que ela some, o garçom volta aos afazeres.

Ainda “Blue Moon” ela sai entoando, enquanto a Lua, por um momento, aparece entre as nuvens do céu espesso...


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