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  • ondovato9

Diálogos Celestiais




No caso, monólogo, uma vez que nosso grampo no gabinete de Deus só nos permite escutar um dos lados da ligação: o do Criador. Aliás, Ele parece impaciente, segurando o telefone no ouvido, caminhando de um lado para o outro sobre o chão nublado, clean de tão branco, até que alguém atende, e o Administrador Supremo finalmente pode sentar. O modelo Godchair V4 Elite Ergoplus, de design divino e delicadamente arrojado, só será lançado na Terra daqui a vinte anos. O Eterno se sentia, ali, sempre confortável.

- ...

- Oi, oi. Tudo bom? Por favor, Eu queria falar com o Lúcifer.

- ...

- Não, não. A Mim ele atende.

- ...

- Ocupado para os outros, nunca para Mim.

- ...

- Minha costelinha, você não está entendendo: Eu sou Deus! Diga que Deus quer falar com ele. Ele vai Me atender.

Alguns segundos se passam.

- ...

- Ele disse que é trote, é?

- ......

- Ah, ele está desfrutando dos prazeres que Eu criei: comendo, bebendo e trepando, é!? Continua desbocada, essa peste! Diz pra ele que Eu sei que ele me chama de Ornitorrinco por aí. E que eu até acho bonitinho, mas posso escrotizar com toda essa mamata de vocês aí!

Esta última fala mostra o quanto a Divindade está antenada e aderindo às novas tendências.

Dessa vez, a espera foi um pouco mais longa, mas:

- ...

- Lu, quanto tempo!

- ...

- Cê sabe que Eu sinto a maior saudade, né?, daquelas nossas conversas que varavam a noite.

- ......

- Ah, você percebia, então, que Eu esticava a noite? Achei que era mais discreto. Eu ia aumentando dez, quinze minutos de cada vez.

- ......

- Sério? Nós tivemos uma noite de oito anos? Não acredito. É que o papo era muito bom.

- ...

- Chato? Mas, você não gostava nem um pouco?

- ......

- Puxa, mas...

- ......

- Tudo bem. Não foi pra isso que Eu liguei mesmo. Deixemos essas reminiscências e vamos ao que interessa.

- ...

- Como?

- ...

- Sim, sim, fui Eu que liguei ontem, anteontem também, mas não tive coragem de falar. Fiquei assim, assim, com medinho, sabe? Não sei como vai ser tua reação. Eu tô numa fase meio pra dentro. Emotiiivo! Qualquer johreizinho me faz chorar.

- ...

- Como onde eu consegui esse número??? Eu sou Deus!!!

- ......

- Pois é, Eu sei que é um momento de muito trabalho para Nós (segundo a Gramática Celestial, sempre que o Patriarca se referir a Ele e outro ser ou seres em conjunto, o pronome deve ser grafado com letra maiúscula) dois, mas Eu não tenho a quem recorrer. E a sua secretária me disse exatamente o que estavas fazendo. Portanto, não me vem com mimimi.

O Pai é foda! Sabe tudo.

- ......

- Então, Lu, Eu vou direto ao assunto: Nós chegamos ao limite. O call center aqui tá sobrecarregado. A fila de espera tá cabulosa. Eu não tô dando conta. Já terceirizei uma parte do trabalho com o pessoal do Purgatório...

- ...

- Quem tá tomando conta lá? É o Chico.

- ...

- Aquele de óculos escuros.

- ...

- Isso, isso. Ele sempre teve aquela facilidade de falar com os mortos. Precisa ver como tá. Ele é bom mesmo. Revolucionou as coisas, o atendimento é incrível, tudo digitalizado, até os arquivos antigos. Eu estou encantado. Tem futuro ele.

- ...

- Pois é, a coisa lá é tão organizada que eu passei a triagem todinha pra eles. Mas também já saturou.

- ...

- Por isso te liguei, pra saber se não tens, pelo menos, uma mão de obra barata aí pra me ceder por um tempo.

- .........

- Eu sei!, eu sei!, eu sei que os serviços mortuários aí sempre foram mais pesados que aqui, mas o que é que eu posso fazer? Tu escolheste os pecadores.

- ......

- De novo esse papo de “escolhidos”? Será que não tem uma única vez que a gente converse que tu não venhas com a questão das cotas? Assim, não é possível! Lu, eu só preciso de algumas centenas de trabalhadores...

- ...

- Éééé, centenas, sim! Tem gente sobrando aí, Lu, pô, dá uma força. É um momento de união. Se a gente não se unir, sei não!

- ......

- Prometo!

- ...

- Eu já disse, Lu!

- ...

- Tá bom, tá bom! Prometo que, assim que essa fase passar, a Gente senta pra resolver esse negócio das cotas.

- ...

- Ô, Lu! É a Minha palavra. Pode confiar.

- ...

- Obrigado, obrigado, serei eternamente grato.

- ......

- Bom, nesse momento, eu tô precisando de uns brasileiros. Tudo que tiveres por aí.

- ...

- Eu sei que é o pessoal mais animado, mas é só por um tempo. Passa logo. Sem contar que tens uma culpa na situação.

- ......

- Sim!, ele se elegeu falando em Meu nome, mas Eu não autorizei. Muito pelo contrário! E Eu sei que ele foi enviado por ti. Logo, tens uns dedos no problema.

- .....

- Não é bem assim. Eu dei as condições para que a vida florescesse e se desenvolvesse. O vírus também tem direito de sobreviver.

- ...

- Ok, ok! Vamos às deliberações. Eu estava pensando em fazer a escolha pelos pecados capitais.

- ...

- Não, não, Eu já decidi...

- ...

- Desculpa, desculpa. Eu gostaria... melhorou?

- ...

- Olha, Lu, não pode ser o pessoal da gula. Aqui não tem comida, logo é um pessoal que vai trabalhar sem vontade, sem estímulo. Preguiça é óbvio que não vai funcionar. A turma da inveja e da ira é muito rancorosa, não dá pra atender quem tá chegando. Acho que a avareza segue o mesmo caminho: quem é avaro não se presta a ajudar o próximo. Agora, imagina os soberbos!: é um trabalhozinho vagabundo, sem plano de carreira, sem benefícios, não dá pra sentir orgulho. Eu tava pensando mesmo era no pessoal da luxúria. Eles têm foco, sabe?!

- ...

- Eu sabia! Tinha certeza que tu ias encrencar com a luxúria. Lu!, é só um tempinho. Juro! Só até as coisas acalmarem. Vai!?

Deus falou de um jeito que até a alma mais maleficente se curvaria.

- ...

- Uma condição? Que condição?

- ......

- O quê??? Não! Ele não vai terminar o mandato! Há coisas inegociáveis!

O Altíssimo desligou o telefone sem se despedir. Estava tão injuriado que soltou uma rara grosseria:

- Merda!, vou ter que trabalhar!

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