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  • ondovato9

Crônicas da Colônia

Atualizado: 1 de out. de 2021

Vil garoa


Cai a chuva fina, vã garoa

Terra boa aos que vêm de boa sina

Àqueles que a chuva contamina

É pedra dura, vida torta, mundo à toa


Líquida agulha, a cada pico tudo mina

Gela a pele escurecida, que destoa

Da alva pele, cuja vida viva voa

O teu voo é vida curta, serpentina


O tempo a cada gota que magoa

Morre n’água suja da calçada

Morada nua, fria, pequenina


Quando cai a chuva fina, vil garoa

Escondida na coberta enlameada

Ninguém nota tua face de menina





Cala!


Isa pena na mão dos machos,

A mão esperta

A mão que apalpa

É a mesma mão que embolsa

É a mesma mão que cala!

Cala, Isa!

O cara,

Descarado,

Desmascarado,

Passa a mão na plenária.

Cala!

Mulher tem é que viver

Na dita dura

Essa, então,

Que rebola até o chão

Só pode ser

De putada.

Cala e pena, Isa!

Confundes abraço com assédio,

Amizade com abuso,

Apreço com lascívia.

Precisas de um homem

Para te ensinar

O que é questão de ordem.

Cuidado!

Aqui,

Os Carlões que ladram,

Também mordem!






PM

Quando cospes

Quando zombas

Quando cruzas

Inadvertidamente

As nossas sombras

Quando protestas

Quando iludes

Quando amarras

Postumamente

Nossos ataúdes

Quando gritas

Quando lutas

Quando arrastas

Arbitrariamente

As nossas putas

É que vejo em ti

Minha própria face

E tu?

O que fazes?

Te aproximas,

Armas,

Ferramentas em tua mão

Convidas a mim

E minha palavra

Para um agradável passeio

Em teu zerado camburão






Soneto da nação redundante

Há uma nação encruzilhada

Numa esquina distante do planeta

É linda, gigante, e determinada

A jogar as normas justas na sarjeta

Não nos ouve, não se toca, não vê nada

Corpo em desapego, alma obsoleta

Vê-se no coturno, no pescoço e na calçada

Devia ver-se mais e mais na carne preta

A boca resplandece costurada

Pela agulha fina, vil e conivente

E a Pátria turva e sem um norte

Aceita, mórbida, e talhada

A ser para sempre, eternamente

A que não foi e veio a morte






Verde-vesgo


Vejo ao longe o verde musgo

E o velho oliva vem com o visgo

De calar-me pelo fisgo

Em mim lançado quando rusgo

A boca aberta num engasgo

O olhar trincado, oco, vesgo

O passo em falso, torto, sesgo

O peito sangrando em fundo rasgo

É o preço pago quando o cego

Só quer ver o mundo vago

Se adequa ao sempre antigo

Do caixão torna-se o prego

E quando nota o torpe estrago

Já está morto no jazigo


Foto: Marcos Corrêa/PR




Soneto de salvaguarda ao Queiroz

Ora, ora, mas que intrépida surpresa

Nos ares invernais lá de Atibaia

O que de nossa cara fez gandaia

Estava confinado, que moleza!

Aquele homem cuja alma é a mais lacaia

Que lambe o chão por onde anda a realeza

Mas guarda seus segredos, com certeza

Não pode ser largado em qualquer baia

O modus operandi da famiglia

Não permite que a gente se distraia

Recuar não pode estar em nossos planos

Para manter-se encilhada em Brasília

Contará com os irmãos de sua laia

Os comparsas cidadãos milicianos




Coprolítica

Nasci num subsídio. Fruto de uma medida burocrática.

Fui semente superfaturada, plantada e lavrada em terra invadida.

Cresci na química lasciva, por decretos permitida.

Fui colhida, distribuída e vendida pela máquina.

Fui precificada nos tributos, tão brutos como tua fome.

Virei bala, propina e pedra. Não tenho nome.

Um dia me vi na fervura. No fogo que me transformou em iguaria.

Fui posicionada num prato branco de boteco.

Mero complemento, um adorno. Corno, em cabeça de novilho.

Senti os dentes do garfo nas minhas costas e a faca a cortar-me em pedacinhos.

Via a boca, via os dentes, via a língua. Fui mastigada, triturada, fui comida.

A saliva a gosma o bolo antropofágico descendo garganta abaixo rumo ao ventre operário.

Estômagonde o sucossuga e me desfazdasfasestodas.

Agora eu fluo, intestinal.

Embrevesereimerda e voltareiaomundo retroalimentando o sistema perversoquemefez subsídio.



Resistência

Chora o céu cinzento e envergonhado

Pela ânsia temerosa dessa gente

Pelo voto odioso ou displicente

Que elevou de patamar um celerado

Chora o peito tão intransigente

Pelo amor distante e arraigado

Pois que seja, assim, exacerbado

O que me deixa ainda mais resiliente

Que a resistência seja agora nosso intento

No direito e no dever, nosso legado

Contra o fascismo e a saudade um veneno

Pra barbárie e pra lonjura um alento

Na atitude a na palavra um recado

Na luta e no amor um gesto pleno



O Prego e a Guilhotina

Haverá no momento oportuno

Um prego a travar a engrenagem

Do sistema há séculos criado

Para alimentar o vívido gatuno

O felino provará do seu veneno

Sofrerá como gado na estiagem

E terá o seu caminho desviado

Para um quarto gradeado e bem pequeno

De fora, o montante da propina

Verá o condenado em pose altiva

Sem perceber sua própria vilania

Como a cabeça decepada à guilhotina

Observava consternada e ainda viva

Seu velho corpo em última agonia



Pátria Puta

Pátria puta

Amada minha.

Amante servil,

Serviçal

Sem vontade,

Sem tesão,

Sem desejo.

São tantos os que te comem

Nos sufrágios.

São tantos os sarneiros

Que te calham.

Tantos te achincalham.

Pátria puta

Amada minha.

Cafetões que te usurpam,

Te abusam.

Seviciam tuas carnes.

Pedófilos perversos.

Não sabem que ainda és criança

No relógio dos tempos?

Podres, pútridos,

Te barbalham incólumes,

Porcos patricidas.

Pátria puta

Amada minha.

Chupam tuas tetas

Como galhofa.

Sugam cada gota

Do teu leite.

O leite dos teus filhos.

Eu, nós.

Somos todos teus filhos.

Somos todos filhos da Pátria

Pátria puta,

Amada minha.

Somos todos teus filhos

Da puta

Pátria

Pátria.



Soneto, ainda que tardio

Derrama sobre o ouro lá das minas

A ganância insidiosa da Coroa

No geral da História, o que destoa:

Lutar contra as forças libertinas

Mas as mãos do carrasco são ladinas

E cravaram suas unhas no mistério

Pela língua dos reis, falaz Silvério

Inconfidência em troca de propinas

A amada liberdade, ainda que tardia,

No pescoço do alferes enforcada

Nos despojos, aos pedaços sucumbida

Era ingrata, usurpada utopia

Pela dor atroz assaz legitimada

Outra vez, até hoje interrompida



Soneto à relevância da discussão sobre a série “O Mecanismo” Por que andas tão meditabunda Se abunda a dita mordidela No suflê de coxinha e mortadela Que sequela a massa moribunda? Se é rubra, verde ou amarela Onde está a turba furibunda? Se quedou omissa, pudibunda Não ulula nem bate panela! Incapaz de uma ideia mais profunda A alma assaz nauseabunda Se exime de fazer o seu rebu Nem percebe que a merda toda é oriunda De um buraco escondido lá na bunda Que chamamos docemente de meu cu



A Fura-greve

É sério que és contra a greve?

Logo tu, defensora dos direitos animais

Não vês a malta de bandidos que se atreve

A banir nossas conquistas mais banais?

Se és coxinha ou mortadela tanto faz

É preciso entender a história breve

Do país e sua sina de almocreve

Governo e parlamento de Alcatraz

O inimigo, cara amiga, está acima

Ele flutua em elevado patamar

De penumbras, peculatos, coisas sujas

Numa nação moldada a garatujas

Cuja História recorrente nos intima

Não é hora de ninguém falaciar



O Mestre do Joio

Não me venha com trigo

Tu, que és o mestre do joio

Me enjoo, engulho, não sigo

Teus desmandos, sou tamoio

Não terás a minha voz, o meu apoio

Jamais chamar-te-ei de meu amigo

Teu bando é do mal, é do Inimigo

Segue roubando, triste comboio

Nossa vida, nosso tempo, nosso abrigo

Não vemos, olhar sempre embotado,

A desfaçatez se mostrar em via pública

Nossa culpa, nossa inércia, nosso castigo

Deixar vosso caráter celerado

Fazer ‘inda menor nossa república



O Levante


O Levante é uma ideia.

Uma ideia em movimento.

Uma brisa, o vento,

Vendaval e panaceia.

É um sopro, um alento

Contra a velha alcateia

Caráter de Medeia

Lavrando sofrimento

É doce como a uva

Singelo como a relva

Misterioso como Java

Mas se infiltra como a chuva

Assusta como a selva

E queima como lava



Os Flatos


Eram tantos exorbitantes aparatos

Aparentavam sempre tola regalia

Viviam todos na mais gritante mordomia

Nutridos por especiais espalhafatos

Mas um fato espalhado em rara revelia

Revelou o poder e a gana dos contratos

A podridão em vários níveis e formatos

A república em pleno estado de avaria

Pelos palácios erigidos no planalto

Só circulava um certo cheiro pestilento

Eram os crápulas desfazendo-se em flatos

Usufruindo das delícias do assalto

Reverberando com horror e desalento

Que Brasília é perfeita toca para os ratos



Negreiros

No escuro universo do porão viscoso

Viviam os de vistosa pele escura

O planeta com sua útil tessitura

Organizou um carrossel prodigioso

Tumbeiros de vultosa envergadura

Atravessavam o mar furioso

No recinto infecto e asqueroso

A velha dama alinhavava a urdidura

Com a calma de feroz devoradora

Espreitava em silêncio aquela orgia

Afiando o fio da foice enferrujado

Em conluio com a coroa usurpadora

Num movimento repentino angaria

Para o coche mais um corpo desalmado



Notícia Velha?

É só mais uma bala que ressoa

É só mais um pretinho de favela

Nada que a atroz nação verde-amarela

Não tolere suave, não anua de boa

Um breve aperitivo de novela

Cantilena recorrente que enjoa

Largado em casa, adolescente, à toa

Para quê, senhores, tanta querela?

Manchete repetida, história antiga

Bala cuspida, operação sem dolo

Milipolícia agindo na rotina

Da escória que, parece, não fadiga

Ansiando do Poder pouco consolo

Ganhando cova, desprezo e tubaína



Duda

Não há nada mais mulher do que Maria Eras Maria, e mais ainda Eduarda Mas os bandidos à paisana ou de farda Executaram tua reles fantasia

Só mais uma dessa gente dita parda Não há motivo para tanta gritaria Só um treino para nossa pontaria Um ponto preto à frente da espingarda

Tu viverás para sempre na memória Das gavetas putrefeitas do Estado Morrerás em duplo ato, cena inglória

Com a carne dissecada, limpa e nua

E o teu nome perfeito, imaculado

Numa pilha de outras vidas como a tua



Coito de março

Abre logo tuas pernas, puta

Mesmo março, mesmo oito

Não escaparás do coito

Que é tua norma de conduta

De presente, vaca, não te açoito

E direi por aí que és impoluta

Aos amigos revelarei tua permuta

Por meu sexo rasteiro e afoito

Crês mesmo na mudança

Nesse dia solitário que te dei?

És cega, não vês a governança

Do macho branco, o teu rei?

És vadia semeada na esperança

No solo velho e morto que lavrei.



Crack

A lua quando despe a madrugada

É só

É forte

É calma

A fonte, estúpida morada

Polui

Maltrata

Estraga

A dor quando veste a namorada

É pó

É morte

É alma

A fronte, fervente e iluminada

Dilui

Retrata

E traga



Carne de gincana

Foste a imagem da semana

Aos tantos prantos repetida

Mal sabias que a vida

É só uma gota que oceana

Leve corpo, lastro na avenida

Invertido lar, sua cabana

Carne à moda de gincana

Ojeriza a ti oferecida

Mero protocolo a tua morte

Estatística comum no dia a dia

Número grafado em tinta preta

Incapaz de alterar nossa faceta

No papel da folha branca, luzidia

Ontem, hoje, sempre a tua sorte



Carnavalia

Havia no mar de alegria,

De folguedo, de folia,

Um extenso rol de incertezas.

E se incertezas havia,

Por que é que essa gente

Tão avessa à alforria,

Fosse noite ou fosse dia,

Se entregava tão fremente

A inútil algaravia?

A liberdade evoluía

Tão falaz, dissimulada,

A cada giro pela via.

Os proscritos,

Em sua falsa rebeldia,

Em sua busca pelo nada,

Naquela triste patuscada,

Nem notavam a agonia

Da corrente oxidada,

Que o bloco dos piratas

À quarta-feira recolhia.



Soneto do ano novo brasileiro

Finalmente nos achou o ano novo Perdidos nesta terra de bananas Comandada por um bando de sacanas Para eles somos lixo, não somos povo

Devo dizer a ti, das mãos tiranas Se é contra ti, daqui me movo Conheço essa capa de retovo Saibas, pois, que não me enganas

A brisa traz o aroma do levante Do palácio envidraçado não percebes Os tantos que ergueram-se do coma

Só notarás a revolta no instante Em que surgirmos silentes pelas sebes E destruirmos tua translúcida redoma



Soneto do arrefecimento Marielle – dia 7 Arrefecem as faces e as facetas Os facínoras fornicam o fantoche O gozo engodo extraído a deboche Fustigando na quebrada as caras pretas Da perifa vê-se a turma do brioche No bafafá, no blábláblá, em tudo tretas Nas propinas ou no soar das escopetas Eivando a sonho antes que este desabroche Do marco zero se passaram sete dias Treze tiros nos forçando à consciência Uma ideia fermentando a nossa sorte Mas o povo desviou-se dessas vias Acomodou-se no frescor da conivência Condenando Marielle à terça morte



A bala e a mala

A bala resvala na nossa inércia É essa inércia que move a bala Quando a plebe não move, cala, Se entrega silente para a solércia


Se reagíssemos perante a mala Que nos empala por peripécia Não seríamos essa massa néscia E ainda tinha A Preta lá na senzala

A bala que nos revela A trama que nos entala É a pala que nos repele

Como a mala que nos desvela É a bala que agora embala A bela cabeça de Marielle



Marielle

Cai no chão bravio mais uma preta

Vaca, não dá mais pio, não atrapalha

Vai pra vala só um cio, outra canalha

Ver o senhorio, puta de treta

Era voz do Rio, lá da gentalha

Povo arredio, usado na sarjeta

Se fosse ao feitio, mera boceta

Manteria o dócil brio, não a mortalha

Mas o franco não se rende, não se cala

Se agiganta, aponta o dedo, denuncia

O sistema há muito já consolidado

Para esses nós reservamos cada bala

Ao nutrirmos toda noite, todo dia

A postura de Guevara conformado



Senado

Sou o pecador e o pecado

Sorvo, sugo o sacrário

Sempre servil salafrário

Sob os pés, principado

Sereno, sutil sedentário

Sigo pela paz penhorado

Solene, paciente prelado

Segrego somente o sudário

Sobre o covil sanguinário

Sirvo o banquete em plenário

Sentindo na pele o primado

Sibila sarrido o sagrado

Sagaz e senil santuário

Satisfaço-me, safado, sumário



Mariana

Eu vi a lama nociva do descaso

Furtar os tempos todos no caminho

Legado dos agentes do atraso

Tragédia prevista em pergaminho

O rio e seu alegre burburinho

Ecos de semblantes do Parnaso

Morreram pela foice do padrinho

Muita grana, pouco caso

A terra surgiu liquidescente

Tragando tramas tão precárias

Engolindo vidas ordinárias

Planta, peixe, bicho, gente

Nada grave, nada urgente

Eram todos, todos párias



O Gado e a Besta

Vive num pasto nebuloso

Um terço da nação, o gado

Gente com o cérebro danificado

E o peito num vasto vazio gasoso

Bostas!, lhes chamou o celerado

E a manada vibrou em tom gozoso

Mirando o lábaro assaz apetitoso

No cu da frente profundamente enfiado

Segue assim triste boiada

Sob o manto verde e amarelo

Sobre o frio fio da navalha

Idolatra a besta extasiada

Seu caráter torpe de martelo

E sua boca chula e a alma falha

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