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  • ondovato9

A Policlínica, o horário nobre e a urna eletrônica

Vêm sendo veiculadas diariamente no horário nobre, nos intervalos mais caros da tevê brasileira, Jornal Nacional e Fantástico, para citar como exemplo, peças publicitárias do governo do estado do Pará em que pacientes acometidos pela covid-19 relatam o maravilhoso atendimento que receberam na Policlínica Metropolitana, equipamento público adaptado para o tratamento da doença no auge da pandemia.

As propagandas, se não são enganosas, no mínimo ocultam boa parte da verdade visível à frente dos narizes dos habitantes desta terra. E não critiquem a contradição “ocultar o que é visível”, pois bem sabemos que a imensa maioria das campanhas institucionais, patrocinadas com o nosso dinheiro, diga-se!, tem como objetivo isso mesmo: escamotear o óbvio, usar dos matizes mais histriônicos e vistosos para ludibriar a parcela da população menos informada, buscando lá na frente angariar os dividendos num aparelhinho chamado urna eletrônica.

Essa postura, esse tipo de conduta tem um nome: má-fé. E quase todos que estão lendo estas linhas têm conhecimento de que é o comportamento padrão, recorrente, reincidente – para usar um termo que nos remete à esfera policial - em quase todos os governos, seja municipal, estadual ou federal. Sendo que este último não tem tido muito o que mostrar. Ora, usar um caso de sucesso para esconder dez fracassos ou omissões é de uma desfaçatez digna da oligarquia reinante há décadas nessas plagas. E, bem, chamar a Policlínica de um caso de sucesso é eufemismo. Houve superlotação, dispensa de doentes, fechamento das portas, sofrimento e mortes que poderiam ter sido evitadas. Ou seja, o sucesso, aqui, sequer foi relativo.

Trago o caso a esta página para destacar uma incoerência e oferecer uma sugestão. A incoerência é gritante: como um governo que vive reclamando da falta de recursos, que mal consegue se amparar nas próprias pernas, que vive com o pires na mão atrás de migalhas, pode, por livre e espontânea vontade, fazer divulgação daquilo que é tão somente a sua razão de existir, gastando centenas de milhares de reais, chegando fácil na casa do milhão, ou milhões? O dinheiro utilizado para se autopromover pagaria toneladas de EPIs, por exemplo, no meio dessa calamidade pública. Aliás, “calamidade pública” é a senha para gastar sem os limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, mas isso não significa fazer o contribuinte de bobo. Tal valor poderia também servir de incentivo a certos setores na recuperação econômica pós-quarentena, ou no auxílio a categorias profissionais arrasadas com a crise. É um caso notório de mau uso do erário e do mais puro descaramento. Nada, infelizmente, a que não estejamos devidamente acostumados. Nosso conformismo beira o anedotário.

Como estamos cansados de saber, crises geram oportunidades, perigos nos levam a adotar medidas de segurança, o medo promove a proteção, a necessidade nos faz criar. Assim, a cada problema buscamos uma solução. Não fosse essa a nossa prática, já teríamos sucumbido em algum ponto de nossa trajetória planetária, e seríamos hoje restos fossilizados para os olhos de alguma civilização extraterrestre. Tal premissa nos leva a pensar em uma saída. E ela é tão simples e, ao mesmo tempo, de uma dificuldade gigantesca, pois nossos políticos – a maioria – não estão prontos para tanto. Minha sugestão é ainda mais óbvia do que a boa ou a má gestão: a publicidade autopromocional deve ser proibida por lei. Afinal, por que nós temos que pagar para que um governo nos mostre aquilo que ele tem obrigação de fazer? Se um governo faz um bom trabalho não precisa de propaganda. Só os governos ruins precisam dela.

Por isso marco nesta postagem alguns amigos e conhecidos políticos, para que essa ideia chegue longe. Fala-se tanto em reduzir os gastos públicos, mas ninguém põe a mão na publicidade. É claro que um projeto semelhante deve existir em alguma gaveta do Congresso, ou assembleias legislativas ou câmaras municipais. Faz parte daquelas propostas que não andam, não vicejam. Há o lobby de várias corporações contra algo assim, não só no campo da política, mas empresas de comunicação, empreiteiras, etc. Não é fácil romper um padrão, um paradigma, mas, quase sempre, é necessário. O dinheiro dos impostos, em publicidade, só deve ser usado para informar a população de seus direitos, em caso de utilidade pública ou para divulgar novas normas e diretrizes, e nunca, nunca deve trazer a marca de uma administração. Aliás, outra coisa que deve ser eliminada. O governo, qualquer governo, é da instituição Estado, não é de uma pessoa ou de um grupo de pessoas. Quando nós entendermos isso sufocaremos os oligarcas.

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